Em 2025, o mundo lusófono celebrará o V Centenário do nascimento de Luís de Camões, e Cabo Verde não ficará de fora dessa homenagem. Um episódio notável que merece destaque é a tradução, em 1898, das estâncias VIII e IX do Canto V de 'Os Lusíadas' para crioulo pelo cónego António da Costa Teixeira, natural de Santo Antão. Esta tradução, publicada como 'Chegada às Ilhas de Cabo-Verde', não só elevou o crioulo a um estatuto literário, mas também simbolizou uma apropriação cultural significativa. Camões, ao descrever a chegada das naus às ilhas, referiu-se a elas como “filhas do velho Hespério”. A tradução para crioulo transformou essa herança colonial em algo que pertence também ao povo cabo-verdiano. O cónego Teixeira, ao traduzir, fez mais do que simplesmente transcrever palavras; ele deu voz a uma identidade cultural que se expressa através da oralidade e da musicalidade do crioulo. Além de Teixeira, outros escritores cabo-verdianos, como Eugénio Tavares, também contribuíram para a afirmação da legitimidade literária do crioulo, traduzindo obras importantes e desafiando as normas da época. Essas traduções foram um passo crucial na dignificação cultural do crioulo, mostrando que esta língua poderia ser um veículo de poesia e pensamento. Celebrar Camões a partir de Cabo Verde é, portanto, um ato de recriação literária e de reconhecimento da riqueza cultural das ilhas. O legado de Camões, agora também em crioulo, é um testemunho de que a língua é tanto herança quanto criação. Ao se ouvir no poema, Cabo Verde reivindica seu lugar no grande épico da língua portuguesa.