As recentes eleições legislativas em Cabo Verde, com a vitória do PAICV, reabrem um debate crucial sobre a organização territorial do Estado e as assimetrias entre as ilhas. Este problema é político e afeta diretamente a justiça territorial, a qualidade da democracia e a coesão nacional. Apesar dos avanços democráticos, a relação entre o Estado e os territórios insulares continua a ser marcada por um modelo centralizado, onde a legitimidade eleitoral não se traduz em verdadeira representação e consulta pública. A insatisfação popular aumentou, especialmente após a transferência de materiais hospitalares de São Vicente para a Boa Vista, que foi vista como uma decisão unilateral do centro, sem considerar as necessidades locais. A suspensão de um médico que questionou essa decisão gerou manifestações e um forte sentimento de revolta. A centralização do poder em Estados arquipelágicos como Cabo Verde intensifica a dependência das ilhas em relação ao centro político, alimentando sentimentos de marginalização e desigualdade. O debate sobre regionalização tem sido frequentemente ignorado pelos governos, enquanto a sociedade civil e a diáspora têm pressionado por mudanças. A resistência em discutir a redistribuição do poder político contrasta com a insistência em reforçar o Estatuto Especial da Praia, que é visto como uma forma de centralização. A crescente insatisfação em relação a decisões políticas que afetam a saúde, educação e investimento nas ilhas exige uma reflexão urgente sobre a necessidade de um reequilíbrio territorial.