A recente oficialização do crioulo e o Estatuto Especial para a Praia surgem como questões potencialmente divisivas na política de Cabo Verde, logo após as eleições legislativas. Muitos cidadãos esperavam que o novo governo se concentrasse em problemas concretos, como o custo de vida e a falta de oportunidades, mas a agenda identitária parece estar a ganhar prioridade. A declaração do Presidente da República sobre a oficialização do crioulo reflete uma intenção clara de tornar esta questão uma prioridade nacional, embora a aceitação dessa agenda por todos os cabo-verdianos permaneça incerta. Desde o pós-25 de Abril de 1974, a valorização do crioulo tem sido vista como um movimento cultural legítimo, mas também como uma ferramenta para construir uma narrativa identitária nacional. A questão central é se todos os cabo-verdianos, incluindo aqueles da diáspora, compartilham essa prioridade, especialmente considerando a importância do português em contextos internacionais e acadêmicos. A preocupação é que a promoção do crioulo possa criar desigualdades nas oportunidades linguísticas entre os cidadãos. A discussão sobre a oficialização do crioulo não é nova, mas a atual configuração política pode trazer novos desafios e oportunidades. A instrumentalização política da língua e a sua relação com o poder entre as ilhas são questões complexas que precisam ser abordadas. Enquanto isso, a elite continua a priorizar a educação em português, o que levanta questões sobre a equidade de oportunidades para as futuras gerações de cabo-verdianos em um mundo globalizado.