A recente participação de Cabo Verde no Mundial 2026, onde enfrentou a Argentina nos dezasseis avos de final, representa um marco simbólico para o país. Este feito transcende o desporto, funcionando como um fenómeno social que fortalece a identidade crioula e a unidade nacional. A eliminação, embora desfavorável, não apaga o privilégio de ter competido com uma potência do futebol mundial por 120 minutos, o que é visto como uma 'meritocracia simbólica'. A campanha de Cabo Verde é mais do que um simples evento desportivo; é um 'facto social total' que mobiliza a sociedade e suas instituições. O futebol, ao colocar Cabo Verde em destaque global, transforma-se numa instituição social que reflete e atenua tensões, servindo como uma válvula de escape para frustrações acumuladas. Durante os jogos, os cidadãos aproveitam para libertar tensões num contexto de controlo social apertado, fazendo do futebol um campo de produção de identidade nacional. A participação de jogadores da diáspora também reforça a ideia de repatriação simbólica e reafirmação identitária, mostrando como Cabo Verde é reconhecido por seus descendentes através de narrativas familiares e práticas culturais. O Campeonato do Mundo, portanto, torna-se um exemplo paradigmático da 'comunidade imaginada' de Cabo Verde, onde os cidadãos, mesmo dispersos, se reconhecem na seleção nacional. Os confrontos com potências do futebol provocam uma suspensão das normas sociais e uma efervescência coletiva, evidenciando a importância do futebol na construção da identidade nacional.