Ao longo de várias gerações, a sociedade cabo-verdiana tem sido marcada por expressivos processos de mobilidade social ascendente de muitos técnicos e dirigentes políticos oriundos de meios populares. A trajetória de ascensão gera, muitas vezes, uma profunda tensão identitária, bem como contrastes, paradoxos e conflitos internos. Uma das dimensões menos visíveis desta mobilidade vertical é a chamada «incongruência de estatuto», que se traduz no desencontro entre a origem social popular e o elevado nível de instrução. Este desalinhamento pode gerar mal-estar e comportamentos específicos na sociedade cabo-verdiana. Importa notar que, no sistema de estratificação social, elite não é sinónimo de classe média. A elite é definida como uma minoria organizada que detém o poder e forma a classe dirigente, e sua posição é reproduzida por vias culturais e simbólicas. Pertencer à elite depende da composição de capitais e da posição no campo do poder. A elite pode ser uma alavanca de mudança e crescimento, desde que alinhada com o interesse público, mas também pode bloquear a mobilidade social e converter-se num fator de retrocesso.