A Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução histórica que declara o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o 'crime mais grave contra a Humanidade'. Esta decisão não só reconhece a atrocidade de ter traficado entre 12 a 15 milhões de africanos, mas também apela a reparações e à devolução de bens culturais saqueados. Para muitos, especialmente as antigas potências coloniais, a memória da escravatura é uma herança incómoda que continua a pesar nas consciências coletivas. O historiador António Correia e Silva argumenta que a votação na ONU trouxe nova visibilidade a uma questão que já era debatida, mas que agora ganha um novo impulso. Com apenas três países votando contra a resolução, a aprovação é vista como um reflexo da moralidade da comunidade internacional em relação aos efeitos duradouros da escravatura. Apesar de ser uma proposta simbólica, a votação revela uma divisão geopolítica clara entre o Norte e o Sul global. Correia e Silva enfatiza a necessidade de uma política intergeracional que aborde as heranças históricas da escravatura. Ele critica o 'presentismo' da política atual, que tende a ignorar questões de longo prazo e intergeracionais. A luta contra as desigualdades sociais, segundo ele, está intrinsecamente ligada ao reconhecimento e enfrentamento das injustiças do passado. O historiador também destaca como as desigualdades atuais, especialmente nas sociedades atlânticas, são um legado direto da escravatura. Ele observa que a maioria da população encarcerada nos Estados Unidos e no Brasil pertence a grupos raciais específicos, refletindo as consequências duradouras da desumanização institucionalizada que a escravatura perpetuou. Portanto, discutir a escravatura em fóruns políticos é não só pertinente, mas necessário para entender e corrigir as desigualdades contemporâneas.