A recente derrota do Movimento para a Democracia (MpD) nas eleições legislativas não deve ser vista como um mero acidente, mas sim como o resultado de um processo prolongado de erosão organizacional. Este processo é caracterizado pela hipercentralização das decisões e pela crescente desconexão entre a elite dirigente e as bases sociais que historicamente sustentaram o partido. A política é uma arquitetura complexa onde a legitimidade e a capacidade de leitura do sentimento coletivo são fundamentais. No contexto internacional, especialmente entre a diáspora cabo-verdiana nos Estados Unidos, a desagregação da comissão política do MpD revelou um padrão de perseguição intrapartidária. A liderança de Cândido Rodrigues, que revitalizou o partido, foi vista como uma ameaça a ser neutralizada, levando a uma estratégia de fragmentação e deslegitimação. Essa estratégia autodestrutiva comprometeu a capacidade de mobilização do MpD na América do Norte, resultando na perda do assento parlamentar correspondente ao círculo das Américas. Curiosamente, a diáspora americana, antes um pilar do MpD, ajudou a consolidar a maioria do PAICV. Além disso, a crescente influência do grupo dos “rapazes do PCD” contribuiu para o afastamento de quadros relevantes e para a erosão do ethos de solidariedade do partido. A construção em torno de Ulisses Correia e Silva, uma figura antes considerada invulnerável, revelou-se insustentável devido à centralização do poder e à marginalização de vozes críticas. O erro estratégico do MpD foi acreditar que a popularidade poderia substituir a organicidade partidária, resultando em um modelo de controle vertical que fragilizou as estruturas institucionais e acelerou o desgaste político.