A recente reação de um antigo primeiro-ministro à retirada de uma viatura do Estado revela questões profundas sobre a cultura política em Cabo Verde. O problema não é a viatura, mas a conceção de poder público que parece estar subjacente à reivindicação. Em uma República, os meios disponíveis a um governante existem em função do cargo, não da pessoa. A confusão entre prerrogativas funcionais e direitos adquiridos deve ser evitada. O episódio é politicamente infeliz e constrangedor, especialmente para um país com limitações económicas. A questão central é se, ao terminar o cargo, termina também a relação privilegiada com o Estado. A resposta deve ser clara: sim. A normalidade deve ser preservada, e um cargo público não deve se tornar um estatuto vitalício. A democracia é medida pela capacidade de aceitar a perda do poder e retornar à condição de cidadão. É fundamental distinguir entre honra institucional e privilégio pessoal. Cabo Verde precisa romper com a cultura de sustentar aqueles que fizeram parte do Estado. Afastar-se da política não é uma derrota, mas uma demonstração de independência. Um estadista deve saber deixar o poder com dignidade, e Cabo Verde precisa de novas gerações e ideias para avançar.
Política
A República não é património dos governantes



